Arte e representação :: Texto de João Werner :: auladearte.com.br
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JOÃO WERNER, autor

O fato mais notável a propósito das artes plásticas é o de serem representação. Além de serem coisas do mundo físico, de terem materialidade e além de serem objetos da experiência de um apreciador, as obras de arte representam algo mais, algo que está além delas próprias.

Esse algo a mais que está representado nas obras de arte é a experiência que o indivíduo ou a coletividade têm em sua existência. Experiência e memória, fatos externos ou internos ao ser humano, moldando seus desejos e a direção de suas ações no mundo físico.

O uso da representação é tão antigo quanto o homem e nasceu com a arte há quarenta mil anos. Embora a tomada de consciência da existência da representação, por si mesma, só tenha vindo à luz completamente no final do século passado, sempre foi realizada pelos períodos históricos.

Pré-história

O mundo pré-histórico teve distintas fases na experiência humana. No chamado paleolítico, a órbita sobre a qual gravitava a consciência do homem era a caça, a transitoriedade da vida nômade, a confrontação com a natureza terrível contra a qual a sobrevivência rarificava-se. Sobre as paredes das cavernas, a pintura representava o assombro do homem diante do mundo de sua experiência: mamutes e bisontes, cavalos e outros animais desfilam numa arte naturalista de tendência mágica e iniciatória, segundo supõem os especialistas. Através de suas representações pictóricas o homem espera trazer para si, para um domínio que está sob seu poder de manipulação, a inacessibilidade do mundo externo, de sua experiência com o natural. (Na ilustração, um Bisão pintado sobre as paredes das cavernas de Altamira, Espanha).

No período pré-histórico chamado neolítico, a revolução agrícola então realizada introduz novo âmbito de experiências: o homem, antes passivo diante da natureza, agora transforma-a, inverte as relações biológicas e seu favor, planta e colhe. Os animais (que temia) agora domestica-os, coloca-os a seu serviço. Percebe que pode projetar sobre a natureza de forma ativa, suas próprias elaborações, percebe que sua experiência pode se projetar sobre o mundo natural. A arte do período passa a uma vivaz geometrização: as linhas em ziguezague desenhadas sobre as cerâmicas representam na arte a potência que agora o homem tem de desenhar na natureza, de desenhar sobre a terra. Essa arte de geometrização representa o sentimento de potência humana diante do real, o recortar e reordenar que as novas técnicas e experiências possibilitam. (Na ilustração, menires em Orkney, Escócia).

Egípcios e gregos

Os Egípcios são já uma civilização urbana, organizada sobre um coeso sistema teocrático, onde um panteão de deuses sustenta as ações dos homens na sociedade. A representação na arte egípcia tem, por espaço de experiência humano, o espaço sacralizado. O faraó, chefe de estado, é também a representação da deidade; a vida do ser humano é voltada às relações com o além-vida. Gerações de pessoas dedicam-se a erguer pirâmides e esfinges, esculturas e relevos , dedicam-se a aplicar, na vida terrena, o cânone do imutável, do perpétuo. Por esse prisma, a representação na arte egípcia sobrepõe-se ao real, a representação (da divindade) torna-se mais significativa que a experiência cotidiana: a arte egípcia é a moldagem do mundo da experiência à luz do cânone de suas representações. (Na ilustração, uma escultura representando o faraó Akhenaton).

Os gregos, herdeiros de tantas culturas, aperfeiçoaram timoratamente suas representações do corpo humano, desde os tempos arcaicos até o período helenístico, no intento a atingir o ideal da mimesis, da similaridade entre representação e o real observável. É com os gregos que a representação alcança seu apogeu e torna-se, a partir de então, o modelo da arte desde o Renascimento até o início do século XX. Os gregos investigam suas representações sob a luz do que observavam, a representação como a forma de copiar o belo nos belos corpos. Para tanto, elaboram-se vários sistemas de metrificar as relações entre as diversas partes dos corpos, uma espécie de aplicação do Pitagorismo à escultura. Alguns destes sistemas ficaram conhecidos até os dias de hoje, como o conhecido sistema de Policleto. (Na ilustração, o Discóbulo, do escultor Míron).

Idade Média

Na arte da Idade Média, genericamente, voltou-se à representação do espaço enquanto espaço sacralizado. Das catacumbas cristãs na Roma Imperial ao esplendor de Bizâncio, dos mosteiros românticos às verticais catedrais góticas, a arte refunde antigas imagens da iconografia greco-romana em novas relações. A representação da arte é, novamente, um propor no mundo da experiência cotidiana a transcendência da vida supraterrena. (Na ilustração, um ícone Bizantino).

A figura humana é seguidamente abstraída, diferenciando-se lentamente do modelo anterior do naturalismo grego, não porque houvessem os artistas perdido suas habilidades técnicas, mas, porque, as novas intenções na representação da arte exigiam novas formas, menos afeitas às particularidades do individual porém mais próximas das novas categorias espirituais. As catedrais góticas elevam-se a alturas inimagináveis ao construtor romântico pelo domínio de novas técnicas de construção . O vidro colorido usado antes nos grandes mosaicos é explicado agora rivalizando com as paredes em vitrais que modulam a luz natural, fazem - na parte da intenção gótica da criação de um espaço da representação espiritual.

Renascimento

Na Renascença, o grande movimento cultural em direção ao indivíduo e à pesquisa do real - que originou a corrente filosófica empirista de um impulso extraordinário à idéia da representação em arte, inclusive aproximando linguagem representativas umas das outras. A representação ilusionistica do real leva a aprimorarem-se antigos instrumentos ou técnicas pictóricas, por exemplo, estudo das proporções humanas iniciados com os gregos e desenvolvidos por artistas renascentistas como Dürer, ou invenção de novas técnicas de perspectiva linear de Uccello etc.

A representação não é passiva diante do real, como para os povos antigos, nem pretendia impor um cânone de representação sobre o real, como pretendiam egípcios ou medievos (embora de formas diferentes), mas, numa atitude verdadeiramente nova, utilizavam-se da representação para perscrutar o real, para pesquisar a natureza. Para um gênio da Renascença como Leonardo, que não só dedicou-se ao aprimoramento das diversas representações artísticas como científicas, a arte era uma forma autêntica de conhecer o mundo. (Na ilustração, um desenho de Leonardo com estudos da anatomia de um braço humano).

Séculos XVIII e XIX

No que chamamos "Séculos das Luzes", Iluminismo - época do surgimento da ciência da arte, a estética, a ciência das belas representações, bem como das primeiras contextualizações da história da arte como algo diverso da biografia de artistas, como era feito na Renascença - a arte, contraditoriamente, perde o caráter de significação que dispunha em séculos anteriores.

Kant - o grande filósofo do século XVIII - distinguia entre a percepção estética, fonte dos juízos, e a produção da arte, e conferia a esta última, mais à suas representações, a função de mero entretenimento, atividade deleitosa, prazer que proporcionaria por seu aspecto lúdico. A representação na arte, nessas concepções, basta como jogo.

No século XIX, a arte retorna ao centro das atenções justamente pela sua potência representacional. Vista como uma antítese às propostas racionalistas do século XVIII, os românticos elevam a representação artística a constituinte integradora de uma sociedade que, segundo supunham, derrocava-se sob o conceituário iluminista. A arte é a representação do absoluto, expressão do indivíduo, manifestação de uma potência criadora, por isso sua refuncionalização como a religião da razão.

Revolução Industrial

Com o advento da revolução industrial, transforma-se completamente, de forma tão rápida quanto radical o campo da experiência humana. O advento da máquina modifica os espaços vivenciais do homem, as grandes metrópoles, as multidões, as exigências da quantidade referente às representações levam a uma conseqüente crise dos sistemas de representação da arte.

A obra de arte, que pela sua unicidade sempre mantivera um etérea distância dos simples mortais, uma aura,, entra em choque com as novas exigências de apreensão, do imediatismo e obsolescência, como qualquer mercadoria diante de uma sociedade ávida de consumo, avessa ao estético. Por outro lado, o desenvolvimento da técnica fotográfica, (e, depois, do cinema), levou a uma crise de identidade representacional para a arte: o velho acordo quanto ao valor da identidade entre a representação e o real é questionado. Estas inúmeras inovações lançaram a representação artística a uma crise que atravessa por toda a modernidade até nossos dias.

Contemporâneos

Contemporaneamente, a representação da arte volta-se a antigas intenções com novas abordagens. Grupo de artistas como o Fluxus retomam a velha disposição romanticista de reunião de arte e vida. Fluxus pretende que dissolvam-se os limites entre as formas de representação da arte e as formas de representação da vida. Joseph Beuys, que foi um artista integrante do Fluxus, realizava o que chamou de "Escultura Sociais", grandes happenings, com intenção políticas. Outras tendências artísticas contemporâneas como a Land Art transformam porções da natureza em representação artística. Crhisto, artista que empacotou o Grande Canion, nos Estados Unidos, faz parte desta tendência artística. (Na ilustração, uma obra de Christo no Valley Curtain, Colorado, EUA).

Outra tendência contemporânea a lidar diferentemente com a questão da representação artística é o neo-expressionismo. Negando qualquer unidade na representação, qualquer referência ou centralidade no objeto artístico nega, finalmente, a própria representação num pretenso confronto com a racionalidade envolvida na arte.

Arte e linguagem

As artes plásticas têm sua riqueza expressiva na inesgotável potencialidade representativa que comportam. Atravessando séculos das mais variadas interpretações, têm uma outra dimensão tão fundamental para si quanto a sua representatividade: os meios de produção artística têm a possibilidade de, sendo compartilhados, tornarem-se da mesma natureza de uma linguagem.

Compartilhando de mesmos instrumentos técnicos, desde as primeiras pedras lascadas ou da fuligem soprada à luz de tochas sobre as paredes das cavernas, os produtores de imagens artísticas forjavam hábitos de ação, hábitos que os norteavam na utilização das técnicas, bem como na antecipação dos efeitos de sua produção. Lentamente organizavam, por invenção e seleção, tornando as sucessivas tentativas em métodos consistentes, autênticos códigos de linguagem.

Pensando nos tempos de antes da escrita, a gênese destas linguagens artísticas deveria repousar sobre a experimentação com materiais, ou seja, da ação das mãos se originavam as imagens. Nos primórdios, esta linguagem imagética tinha a mesma natureza e significação da linguagem mítica. As linguagens visuais colaboravam em assimilar o mundo, à mesma medida em que se limitavam os homens deste mundo.

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