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Conceito estético do Feio e da Feiúra

© Texto de João Werner


A associação enganosa (porém, tradicionalmente estabelecida) entre o belo e o bom teve, por conseqüência, a associação, similar e inversa, entre o feio e o mau.

Assim, as personagens más das estórias infantis são feias, tais como as bruxas, por exemplo, enquanto que as heroínas são formosas.

Satanás é representado em formas monstruosas nas catedrais góticas, e sua feiúra tem por finalidade colocar o fiel no caminho da virtude, através do medo.

Se toda a arte de estilo clássico, desde os gregos, buscava ser bela, o século XX vai resgatar o feio como um instrumento da luta modernista contra o classicismo.

Ao abandonar o belo, as vanguardas abriram todo um leque de apreciação de novos objetos estéticos. O objeto feio pode ser expressivo, estranho, trágico, grotesco ou perturbador mas, como aprendemos com os vanguardistas, sua observação pode causar grande prazer.

Por isso, nós, habitantes do século XXI, herdamos um gosto especial pelo que é feio.

Introdução

Sem entrarmos ainda na controvérsia da questão moral associada a estes dois conceitos antagônicos, definiremos o feio a partir de determinados aspectos formais, visíveis nos objetos, exatamente como fizemos com o conceito de belo.

Assim, como uma antítese do belo - enquanto este é a manifestação formal da ordem, da simetria e da proporção - o feio seria tudo aquilo que é, formalmente, desordenado, assimétrico ou desproporcional. Assim o feio é a deterioração ou a desorganização da forma. Em outras palavras, o feio é tudo aquilo que não é formalmente perfeito.

Como mostrou Rudolf Arnheim (ver na Wikipedia), se observarmos um ponto assinalado sobre um plano qualquer, saberemos dizer se este ponto está centralizado ou não. Isto é, nossa percepção da correção formal é inerente à nossa apreensão visual. Abaixo, vemos dois planos de medidas idênticas, nº 1 e nº 2. Após algum tempo, nós traçamos duas diagonais pontilhadas, indicando o centro de cada plano. Assim podemos observar (caso ainda não o tenhamos feito) que o ponto nº 2 está posicionado ao centro do plano, ao contrário do ponto nº 1, deslocado para a esquerda.

A percepção do centro
O ponto nº 2 está assinalado ao centro do plano

Aferir, através da percepção, foi, certamente, um desenvolvimento bastante útil na evolução humana. Em épocas ancestrais, quando víamos pegadas no solo, saberíamos extrair, daí, diversas informações bastante úteis à nossa sobrevivência. O animal que produziu as pegadas, era um predador ou uma possível presa? Andava ou corria? Qual era o seu peso? Isto é, era um adulto ou um jovem? Portanto, era um animal experiente ou não? Mancava, devido a algum ferimento ou era um animal saudável? Etc.

Todas as pessoas têm este senso visual da aferição, mas algumas pessoas o tem mais  desenvolvido. Um funileiro experiente, por exemplo, pode identificar, a olho nú, se a lataria de um automóvel foi reformada ou não. Isto é, ele afere visualmente se a lataria ainda preserva as linhas originais da fábrica ou se sofreu algum amassado, corrigido posteriormente. Ou, também, um arquiteto pode verificar a correção do prumo de uma superfície de uma parede, após esta haver sido aplicada com argamassa.

Outros exemplos desta virtude que o senso comum chama de "olho bom" são, entre outros:

  1. endireitar um quadro fixado à parede
  2. encaçapar uma bola em um jogo de sinuca
  3. fazer o retrato de alguém através de um desenho
  4. costurar um botão em uma fila de botões em uma camisa
  5.  fazer um longo lançamento em um jogo de futebol
  6. fazer um móvel tal como uma mesa ou uma cadeira
  7. encaçapar uma bola de basquete na cesta
  8. estacionar um automóvel em uma vaga estreita na rua

Em todos estes exemplos, acima, alguém pode aferir, a partir de um aspecto visual, o que seria o mais correto formalmente e, em função do qual, podemos avaliar tudo aquilo que estaria, eventualmente, torto, deslocado, deteriorado ou desorganizado.

O conceito da boa forma é a origem conceitual, inclusive, para uma escola de psicologia denominada de Gestalt (ver na Wikipedia). De acordo com esta teoria, nossa percepção procura, a um nível inconsciente, pela forma organizada. Isto é, nós tendemos a buscar semelhanças e proximidades entre os fenômenos visuais, por exemplo, como uma maneira de compreender o mundo, dar-lhe significado.

É diante deste contexto instintivo da percepção da boa forma que se afirma o conceito estético do feio, qual seja, a percepção da má forma de alguns objetos.

Dito de outro modo, a percepção da boa forma implica, necessariamente, na percepção concomitante da má forma. Sabemos quando o quadro está torto na parede, ou quando um botão foi pregado fora do alinhamento dos outros botões, ou quando calculamos mal a trajetória em que batemos na bola branca da sinuca, ou quando uma fruta está passada etc.

A forma do feio

Abaixo, vemos um retrato da atriz Angelina Jolie (ver na Wikipedia). Em seu rosto, vemos o padrão formal da beleza de uma face humana, simétrico e proporcional. A linha vertical, em preto, divide o rosto da atriz em duas metades. As linhas em branco são perfeitamente horizontais, e indicam a posição simétrica dos olhos, sobrancelhas, cantos da boca e narinas. É um rosto cuja morfologia exemplifica a perfeição simétrica da beleza.

Animação sobre a simetria facial
A simetria perfeita do rosto da atriz Angelina Jolie.

Ainda abstraindo do aspecto moral que é embutido pela cultura na avaliação destes conceitos, vemos, abaixo, alguns exemplos do feio formal em cabeças desenhadas por Leonardo da Vinci (Aula de Arte). Podemos perceber, claramente, nestes desenhos, a evidente desproporção e assimetria dos rostos, todos em oposição formal à face de Angelina Jolie.

Cabeça grotesca, Leonardo
Um exemplo formal do conceito estético do feio, em um rosto assimétrico e desproporcional.
Leonardo da Vinci, "Cabeça grotesca", c. 1480-1510, carvão vermelho sobre papel, 17,2 x 14,3 cm.,
Biblioteca Real do Castelo de Windsor,
fonte: Wikipedia.
Perfil grotesco, Leonardo
A desproporção no formato do queixo desta figura é um exemplo do feio formal.
Leonardo da Vinci, "Perfil grotesco", c. 1487-90, desenho.
fonte: Wikipedia.

 
Cinco caricaturas de cabeças, Leonardo
Leonardo da Vinci, "Cinco caricaturas de cabeças", após 1490, pena e tinta sobre papel, 18 x 12 cm.
Accademia de Veneza, Itália,
fonte: Wikipedia.
Cinco cabeças grotescas, Leonardo
Leonardo da Vinci, "Cinco cabeças grotescas", c. 1494, pena e tinta sobre papel, 261 x 206 cm.
Biblioteca Real, Castelo de Windsor, Inglaterra,
fonte: Wikipedia.

Nestas personagens desenhadas por da Vinci, há evidentes distorções quanto à regularidade morfológica esperada em um rosto. Queixos exageradamente protuberantes, arcadas dentárias mais extensas do que as testas, e assim por diante.

Estes exemplos - o rosto de Angelina e os desenhos de da Vinci - são dois extremos da escala de beleza/feiúra em um rosto humano. De um lado, a perfeição simétrica de uma modelo e atriz profissional e, de outro, as deformidades anatômicas criadas por um gênio das artes. Entre estes dois extremos estéticos, evidentemente, estão posicionados todos os rostos humanos, alguns mais belos formalmente, outros mais feios.

Em todos os seres vivos, também ocorrem alterações genéticas na morfologia de alguns indivíduos, as quais podem ser consideradas feias, porque são formalmente diferentes do padrão morfológico daquela espécie. Abaixo, vemos dois concorrentes do concurso "O cachorro mais feio do mundo". Em ambos, podemos ver que o que os torna feios é a diferença formal que têm em relação à morfologia paradigmática dos cães, em geral.

foto de cachorro feio
Cachorro feio, porque disforme.
"Elwood", mistura das raças Chiuaua e Cão de Crista.
Karen Quigley, proprietária, EUA.
fonte: Site "Bahia no ar".
Foto de cachorro feio
"Ug", sem raça definida.
April Parker, proprietária.
fonte: site "Webcachorros".

Entre os produtos da cultura, tais como os objetos de artesanato, mobiliário e arquitetura, por exemplo, também distinguimos, do ponto de vista estético, as formas que estão completas, das formas que estão deterioradas ou desorganizadas. Abaixo, vemos dois edifícios, cujo abandono resultou em sua deterioração. Embora possamos abstrair de sua situação atual e imaginarmos sua qualidade arquitetônica de outrora, entretanto, o seu aspecto atual é feio, de acordo ao que viemos definindo até agora.

Solar dos Malafaias
"Vista geral do Solar dos Malafaias", Santa Cruz da Trapa, Portugal.
fotógrafo: João Carvalho.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY-SA 3.0.
casa abandonada em Detroit
"Casa abandonada em Detroit",
fotógrafo: Notoriuos4life.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: domínio público.

Os mesmos objetos, quando organizados, podem pretender uma apreciação de natureza estética, tal como vemos abaixo, à direita. As mesmas garrafas pet, desorganizadas, como vistas no lixão, à esquerda, são feias. Além disso, cada garrafa, individualmente, está amassada e suja no lixão, o que aumenta, para nós, a sensação de feiúra.

Lixo
"Embalagens plásticas depositadas em aterro sanitário."
fotógrafo: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY 2.5 br.
Pinguim feito de garrafas plásticas
"Escultura com garrafas plásticas", Pindamonhambaga.
fotógrafo: PauloMSimoes.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY-SA 3.0.

Desta maneira, como o feio é um conceito estético decorrente do conceito do belo, ele define-se, então, de modo negativo. Feio é o que não é belo, isto é, feios são todos os objetos que são formalmente imperfeitos, desarmônicos, desestruturados, desproporcionais, assimétricos etc.

Além disso, como há diferentes níveis de imperfeição na forma dos corpos e dos objetos, podemos dizer que há diferentes níveis de feiúra. Todos nós que não fazemos parte daquele restrito grupo dos modelos internacionais somos, de certa maneira, feios. A feiúra é, assim, uma característica humana por excelência.

A moral do belo e do feio

A origem (não intencional) da associação do feio ao mal foram as venerandas teorias de Platão (ver na Wikipedia), as quais associavam o belo ao bom e ao verdadeiro. Para Platão, o belo seria a manifestação do bem.

Se o belo é a exposição da verdade em nosso mundo, então, por conseqüência, o feio só poderia ser a manifestação do mal. Platão não disse isso mas é um corolário aceitável. A imensa disseminação das teorias de Platão sobre o belo, em toda a filosofia posterior, carregou consigo o feio como a um inimigo  subliminar, porém indissociável.

Quando Plotino (Wikipedia), posteriormente, associou o bem (e o belo) à divindade, então se fechou o cerco sobre feio, levado a ser, nesta contínua linha de argumentos, associado ao Demônio. Nesta perspectiva filosófica e teológica, ser feio era ser malvado ou ser possuído pela maldade.

As catedrais medievais, por exemplo, estão eivadas de imagens do Demônio como um ser horripilante. O feio é, então, considerado a melhor maneira de representar o mal.

Jan van Eyck, Díptico
Jan van Eyck, "Díptico da Crucificação e do Último Julgamento", c. 1420-25, óleo sobre tela, transferido sobre madeira, cada peça 56,5 x 19,7 cm.
Metropolitan Museum of Art, Nova York, USA.
fonte: Wikipedia.
Licença de uso: domínio público.
Detalhe
Detalhe do "Inferno" do painel ao lado. As figuras demoníacas são horripilantes. A representação do mal é feita através da feiúra.




Este desenvolvimento teórico, com a consequente disseminação cultural, foi subreptício, porém extensivo.

Claramente, entretanto, esta associação entre o feio e o mal é um equívoco. Se, segundo a teologia cristã, a ação demoníaca na terra objetiva atrair as almas para a perdição, obviamente só através da sedução da beleza isso seria possível. Em outras palavras, pouquíssimas pessoas seriam seduzidas por um Demônio horripilante, mas muitas seriam seduzidas por um Demônio de grande beleza.

O potencial sedutor da beleza e, portanto, seu potencial de "desvirtuar as almas", já ficou claro no pensamento teológico durante a própria Idade Média. A denominada guerra Iconoclasta (Wikipedia) no século VIII, por exemplo, foi uma guerra entre os que defendiam a decoração dos templos cristãos e os que defendiam que esta decoração poderia se tornar uma fonte de distração, de prazeres e pecado. Os mosaicos coloridos, os ícones dos santos, os vitrais luminosos, etc., tudo isso poderia levar o fiel, segundo os teólogos medievais iconoclastas, a buscar não o paraíso mas, sim, o prazer terreno da apreciação estética.

Sendo assim, podemos afirmar que a beleza nem sempre é a manifestação do bem ou da divindade.

A própria mitologia grega já apresenta inúmeras passagens onde o belo é usado como uma fonte ou instrumento de desgraça e de morte. Ulisses (Wikipedia), por exemplo, quando retorna para a Ática, depois da guerra de Tróia, passa pela terrível provação de ter de resistir ao belíssimo e apaixonante canto das sereias (Wikipedia). Estes seres mitológicos atraiam os marinheiros para a morte. Os que ouviam o seu belo canto, enlouqueciam e pulavam na água, morrendo afogados, ou então naufragavam os barcos, tentando chegar até a ilha dos monstros.

No folclore brasileiro, também, as lendas do boto e da Uiara (Wikipedia) falam da beleza que conduz à destruição. O boto transforma-se em um lindo rapaz nas noites de festa junina e seduz e engravida as moças. Já a Uiara é uma sereia que encanta aos homens com a beleza de sua parte humana, levando-os a se afogarem.

Sereia
William Bloye, "Sereia", escultura em bronze.
Guilda dos Estudantes da Unversidade de Birmingham, Inglaterra.
fotógrafo: Oosoom.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY-SA 3.0.
escultura do Boto
O boto, tendo relações sexuais com uma moça a quem seduziu. Na escultura, ele apresenta a cauda de peixe e o chapéu, usado para esconder, segundo a lenda, o seu respirador no topo da cabeça.
Oscarino Porto Braga, "Figuras amazônicas do látex da balata", escultura.
fonte: site PontoSolidário.org.br.

Por outro lado, é claro que a feiúra não abriga qualquer tendência inconteste ao mal. Na literatura, por exemplo, encontramos vários personagens que, embora feios, são descritos como bondosos e altruistas.

Cyrano de Bergerac (Wikipedia), de Edmond Rostand, por exemplo, é um personagem cuja feiúra só é equiparável à sua extraordinária habilidade com as palavras. Cyrano vive um amor intenso, mas não correspondido, por sua prima Madeleine Robin. Ele teme declarar-se e ser rejeitado. Outro rapaz, Cristiano, apaixona-se também por Madeleine e, sem saber dos sentimentos deste, pede ajuda a Cyrano para conquistá-la. Cyrano vê, nesta proposta, uma chance de poder ficar perto daquela que ama, e aceita ajudá-lo. Cristiano conquista Madeleine, utilizando-se dos argumentos sedutores de Cyrano.

Cyrano de Bergerac
Os personagens Cyrano (Gérard Depardieu) e Madeleine (Anne Brochet), em filme de 1990.
"Cyrano de Bergerac".
direção: Pierre Lhomme.
distribuidora: Orion Classics.
fonte: Youtube.

Outro personagem, cinematográfico, cuja feiúra é solidária com a sua boa índole é Edward Mãos de Tesoura (Wikipedia). Sendo a criação meio robótica de um cientista, Edward ficou inacabado, dado o falecimento de seu criador. Isto explica sua aparência grotesca, tal como, por exemplo, suas mãos, completadas, posteriormente, com tesouras. Apesar de ter este aspecto grotesco e assustador, Edward é uma figura amável, pacata e discreta.

Edward mãos de tesoura
O encontro dos personagens Edward (Johnny Depp) e Peg (Dianne Wiest).
"Edward Mãos de Tesoura" (Edward Scissorhands), 1990.
diretor: Tim Burton.
distribuidora: 20th Century Fox.
fonte: Youtube.

O feio e a cultura atual

Dado o tingimento moral cultural dos conceitos de belo x feio, nossa sociedade acha ofensivo falar que algumas formas não se enquadram no conceito do belo. Segundo a cultura atual, por exemplo, é de mau gosto (e agressivo) falar que alguém é feio, por exemplo.

Mesmo assim, contraditoriamente, a indústria portentosa dos cosméticos, da cirurgia plástica e das academias de ginástica prolifera como cogumelos depois da chuva. Assim, embora nós evitemos usar palavras tais como "gordo" ou "velho", por exemplo, para nos referirmos às outras pessoas, por outro lado, gastamos, anualmente, milhões de dólares em produtos para reduzir a barriguinha proeminente ou as rugas em nossa face.

Em nossa cultura atual, gostemos ou não, há uma grande pressão social em prol das formas que são anatomicamente mais próximas de um determinado padrão morfológico do corpo humano, qual seja, magro e jovem.

Desfile de moda
"Desfile de moda".
fonte: site Oficina da Moda.
Candidatas do Miss Universo
"Finalistas do Concurso Miss Universo 2006".
fotógrafo: Rafael Amado Deras.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY 2.0.

Podemos e devemos discordar deste padrão cultural atual de beleza e de feiúra. Podemos e devemos trabalhar culturalmente para diminuir o seu impacto social, mas não podemos negar que este padrão existe, e que impera em nossa sociedade.

Segundo estes padrões culturais, um corpo humano que não é magro e jovem, é feio.

O maior impacto cultural da distinção entre os conceitos estéticos do belo/desejável versus feio/indesejável se dá na publicidade. Um produto deformado, amassado, torto, feio em nosso conceito, é inviável na publicidade. Para despertar o desejo e, portanto, obter o consumo, apenas a perfeição formal é admissível.

lata de Coca Cola amssada
Uma lata de Coca Cola™ amassada e formalmente feia.
Publicidade de Coca Cola
A lata perfeita, em uma publicidade, bela e desejável.
fusca amassado
Volkswagen™ amassado, feio e indesejável.
Publicidade de um fusca
"Fusca" em uma publicidade, perfeito, belo e desejável.

O feio é o "outro", diferente de mim

Narciso de Caravaggio
Caravaggio, "Narciso", 1594-6, óleo sobre tela, 110 x 92 cm.
Galleria Nazional d'Arte Antica, Roma.
fonte: Wikipedia.

Além da definição do feio enquanto uma característica formal percebida nas coisas, há uma segunda conceituação acerca da feiúra. Trata-se de uma definição que poderíamos intitular de narcísica.

Narciso (Wikipedia) era um herói grego de extraordinária beleza. Por isso, atraia o amor de todos, mas a todos desprezava. Depois da ninfa Eco morrer de amores por ele, para dar uma lição ao rapaz, a deusa Afrodite faz com que ele apaixone-se pelo próprio reflexo em uma lagoa. Incapaz de retirar-se de defronte de sua própria imagem refletida na água, Narciso definha e morre.

Como bem diz o verso da música "Sampa", de Caetano Veloso, "Narciso acha feio o que não é espelho". Isto é, nós tendemos a considerar como belos (e desejáveis) os objetos e pessoas tanto quanto são mais parecidos conosco e, claro, ao contrário, mais feios (e indesejáveis) tanto quanto mais tenham uma aparência diferente da nossa.

Este conceito da feiúra enquanto diferença morfológica é exemplarmante apresentado pelo conto de fadas "O patinho feio" (Wikipedia), de Hans Christian Andersen. Um ovo de cisne, inadvertidamente, é chocado por uma pata. Por ser muito diferente dos outros patinhos da ninhada, é considerado feio por todos os patos da lagoa. Ao crescer, desenvolvendo a morfologia própria de um cisne, encontra os outros cisnes e revela-se em sua verdadeira essência e beleza. Evidentemente, o cisne não era feio, mas comparado aos patos, foi assim considerado.

O patinho feio, animação
"O patinho feio" (The Ugly Duckling), 1939.
direção: Jack Cutting.
produção: Walt Disney.
fonte: Youtube.

Novamente, podemos concordar ou não com esta conceituação acerca do feio mas, não podemos negar, ela é intensamente operante em nossa cultura.

Nesta perspectiva, em nossa sociedade brasileira, multicultural, porém colonizada por portugueses, europeus, é natural (porém, equivocado) que o padrão dominante de beleza na mídia tenha sido, por muitas décadas, e ainda hoje, o padrão estético da pele branca, ocidental. Somente de uns poucos anos para cá é que vem se solidificando - corretamente, diga-se - a apresentação na mídia de outras belezas raciais, de modo a refletir mais adequada e apropriadamente a miscigenação racial que constituiu o Brasil.

Usando da metáfora da fábula de Andersen, é desejável e correto que na representação da beleza na mídia brasileira, cisnes, gansos e todas as outras aves tenham sua beleza valorizada, tanto quanto a de patos.

Gostar do feio


Munch, 1893, O grito, caseína, crayon e têmpera sobre tela, Nasjonalgall Gallery, Oslo, Noruega.
O artista deforma a figura e converte-a num grito contra a tradição clássica da pintura.

A assunção da arte moderna, no início do século XX - a qual mudou o panorama da arte contemporânea mundial -  surgiu, em parte, como uma revolta contra o belo clássico.

Dentre os muitos aspectos conceituais ligados à esta revolta cultural, um, em particular, nos interessa: a valorização do feio enquanto produto cultural intencionalmente buscado.

O sucesso das, assim chamadas, vanguardas (Wikipedia) foi tão retumbante nesta empreitada que hoje é quase uma heresia colocar em uma mesma frase o nome de Van Gogh (Aula de Arte) e a palavra "feio". Entretanto, parte do que motivou a rejeição dos contempoâneos de Van Gogh à sua arte foi, justamente, esta inconformidade do pintor holandês para com os padrões estéticos da beleza formal, simétrica e proporcional. A pintura de Van Gogh é, formal e intencionalmente, feia.

Entretanto, nesta recusa da beleza clássica reside seu maior valor. Através da feiúra, Van Gogh nos mostrou que existem outros valores possíveis na arte, além da beleza. Muitas vezes, um artista deforma o objeto de sua pintura, para que esta pintura expresse mais intensamente a emoção que o artista está sentindo. Isto é, o artista moderno trocou a beleza pela expressividade.

Esta atitude criativa teve muitas conseqüências e desdobramentos culturais. Uma destas conseqüências é que, hoje em dia, nós, apreciadores contemporâneos, aprendemos a gostar do que é feio. Isto é, a partir dos vanguardistas, nós aprendemos a aceitar, em arte, aquilo que não é belo, clássico. Nós aprendemos a buscar outros valores artísticos, para além da beleza.

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